Na noite o ar denso envolve a matéria, iluminada pelas luzes, ora frias, ora quentes. As cores que se fazem de auras de objetos inanimados espalham-se pelas paredes e móveis. O verde dança com o vermelho na atmosfera enfumaçada, aqui e também em muitos outros lugares. O azul expele sonhos. O amarelo sua e soa, suor e sons, ou ruídos. A janela aberta leva o mundo para dentro assim como traz os segredos para fora. Na penumbra, nas cores, os olhos são confusos e os olhares, surpresas. A música pode ser a música, o carro, a campainha, o chuveiro, o bêbado, o vizinho, a chuva, o silêncio, o relógio. A cama expulsa o corpo. As roupas têm vida própria. A madeira fala com a pele. Animais na rua, no telhado, no vizinho, no ralo, na parede – preto e cinza e marrom. Água no copo, na rua, no corpo, no teto. Espelho no quarto na sala no banheiro. Surdo. Oco. Úmido. Sombras inquietas. Respirar, pensar. Nervos. Ironias e sorrisos. Procuras e descasos. Fracassos e vidro. Metal. Reflexo e miragem.
* cut copy/2008 – escutaqui: hearts on fire
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Olhando de longe, com olhos assépticos, é possível que se veja uma ordem, depois de um certo tempo. Como se estivesse isolado, em um ambiente branco de laboratório, aquele movimento caótico organiza-se através da abóbada de vidro, embaçada pelo calor – que emana daqueles corpos, movendo-se em todas as direções.
Calor de vida, mas que eles não vêem. Assim como não se vêem aprisionados, não se vêem em sincronia e nem ao menos uns aos outros. Seus olhos tornaram-se redomas de chumbo, pesadas e que não permitem que se veja qualquer coisa além daquilo que as lágrimas alcançam, além dos bicos dos próprios sapatos. E não sentem o calor… Sua sensibilidade lhes dá apenas calafrios ou pequenos choques, desconfortáveis, indesejáveis.
Neste movimento, com olhos pesados e sem rumo, só se deseja fugir. Mas impossível saber para onde.
no conversa. besos de las vegas.
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